Projeto no sertão concilia produção rural com a seca



Iniciativa ‘Adapta Sertão’ investe na assistência técnica e no cooperativismo para que produtores consigam manter renda o ano todo. Projeto no sertão concilia produção rural com a seca
Produtores rurais da Bahia estão conseguindo conciliar a produção rural com a seca graças a um projeto chamado Adapta Sertão. Ele testa tecnologias para que o produtor consiga ter renda mesmo em períodos de estiagem.
Criado em 2006, o programa desenvolvido por ONGs atende 650 produtores no semiárido baiano. Mais de R$ 10 milhões foram investidos em assistência técnica, compra de equipamentos e na formação de cooperativas, que hoje garantem a comercialização de quatro tipos de produtos: leite, cordeiro, frutas e hortaliças.
“A cooperativa é o elo dos produtores e do comércio, então ela absorve os produtos das quatro cadeias, processa dentro da cooperativa e vende para o mercado. Ela garante, no mínimo, um salário mínimo para cada produtor”, explica a presidente da cooperativa Ser do Sertão, Valdirene de Oliveira.
O objetivo é fazer com que os produtores da bacia do Rio Jacuípe estejam caminhando com as próprias pernas daqui a cinco anos, sem precisar do dinheiro do projeto: produzindo, conquistando novos mercados e preservando a caatinga.
Garantia de produção e de renda
A agricultora Marinalva da Silva lembra das dificuldades de produzir com a falta das chuvas. “Quando era no período da seca, que acabava a água, aí a gente parava [de produzir] porque não tinha onde colocar a água, depois apareceu essa benção”, recorda.
A “benção” no caso de Marinalva foi uma cisterna de produção, onde ela armazena a água da chuva e do caminhão pipa, para manter sua horta produzindo o ano todo.
Além disso, a agricultora também ganha dinheiro com o extrativismo do umbu, uma fruta típica da região. A atividade também é incentivada pelo Adapta Sertão: cooperativa que surgiu por incentivo do projeto paga R$ 1,50 pelo quilo do fruto e processa tudo em uma fábrica de polpa que fica no município de Pintadas.
A unidade também emprega jovens da região, que recebem R$ 5 por hora trabalhada.
No ano passado, a cooperativa processou 48 toneladas da fruta. Para este ano, o objetivo é dobrar a produção. Outra ideia também é expandir o processo para outras culturas.
Alimentação dos animais garantida
No módulo de produção desenvolvido para criação de vacas leiteiras, tudo fica agrupado na mesma área: curral, capim, palma, casa de serviço. É um semiconfinamento.
Na propriedade de José Antônio Borges, as 20 vacas são criadas em apenas 7 hectares. O pecuarista de leite estava acostumado em ver a produção minguar ano após ano. “Eu já estava para desistir, para ir pra rua, porque a gente não via algo. Sempre perdia muita produção”, recorda.
Em dois anos, a produção das suas vinte vacas saltou de 100 litros por dia para 340. E ele quer mais.
“Eu cheguei a 300 litros rapidinho e foi só manejo. Não comprei uma vaca. Eu quero ver se se chego a mil litros, eu vou lutar”.
Borges já está conseguindo atravessar a estiagem sem grandes dificuldades e sem prejuízo. Hoje, ele tem comida armazenada suficiente para alimentar bem as vacas por pelo menos um ano e meio. E com um detalhe importante: sem diminuir um litro na produção de leite.
O resultado foi por causa da assistência técnica. O veterinário Igor de Carvalho César orientou Borges para lidar melhor com a alimentação dos animais, especialmente utilizando a palma, uma planta popular na região.
“A vaca precisa receber alimento de qualidade por causa da falta de chuva e a palma é uma cultura resistente a seca, não precisa de grandes quantidades de chuva para produzir muita comida”, explica.
O pecuarista até dava palma para vacas, mas não tinha o hábito de cultivar a planta com o espaçamento adequado ou adubação.
Além disso, a palma não causava boa digestão nos animais. Para resolver esse problema, o criador passou a fornecer uma fonte de fibra junto com a planta: o capim-seco.
No caso dos animais para o abate, o Adapta Sertão também iniciou um projeto para os criadores de ovelhas. O pecuarista Aristóteles Santana, do município de Baixa Grande, tem 5 mil cabeças e reservou 400 ovelhas pra testar a experiência do Adapta Sertão.
“A produção melhorou, o atendimento, parte veterinária, limpeza, o plantio da palma, isso tudo tem ajudado a gente a se fixar mais aqui na região” conta.
Nesse sistema, cada ovelha produz dois cordeiros por ano e eles chegam aos 30 kg – peso de abate – com aproximadamente 120 dias: faça chuva ou faça sol.
Combate à desertificação
O futuro da iniciativa depende ainda de uma outra empreitada: o combate à desertificação. O coordenador do Adapta Sertão, Daniele Cesano, explica que o aumento da temperatura e a diminuição das chuvas nas últimas décadas estão acelerando esse processo.
Para seguir produzindo, é fundamental, segundo ele, conscientizar os produtores para a necessidade de reflorestar a caatinga.
O Adapta Sertão conta com financiamento de fundos internacionais, do Ministério do Meio Ambiente e do governo da Bahia.
Source: Globo Economia